As
carteiras eram de madeira. O tampo se abria e era lá que
colocávamos a pasta e a lancheira. Os cadernos ficavam em
cima da carteira, junto com o lápis, a borracha, a régua
e o compasso. Os professores tinham um lápis grosso para
corrigir provas. Era um Johann Faber, metade vermelho, metade azul.
Faziam um “C” em azul nas respostas certas e um “X” em
vermelho nas erradas. Os recursos didáticos não eram
grandes. Ainda assim, aprendíamos muitas coisas. O mínimo
e o máximo divisor comum, a capital da Suécia, os
afluentes do Amazonas, a raiz quadrada de 49, o ventrículo
direito e o esquerdo, o Tratado de Tordesilhas, a Invasão
Holandesa, o sistema métrico decimal e o seis vezes sete,
quarenta e dois. Visto assim, poder-se-ia afirmar que minha formação
escolar, no Consolata, nada teve de excepcional. Estar-se-ia, no
entanto, praticando um grande equívoco. Pior. Uma grande
injustiça. O Consolata ensinou-me, em verdade, muito mais.
Ensinou-me, que educação constitui um processo permanente.
Um ideal a ser perseguido. Sempre. Até o fim dos tempos.
Ensinou-me a pensar. A ter autonomia moral. A ser uma pessoa participativa
e crítica. Abriu-me as janelas e, a partir daí, pude
ver os campos e os rios, as árvores e as flores, as idéias
e as pessoas. Só assim pude superar a condição
de menina pobre, tímida e solitária para, ultrapassando,
também, as barreiras de um anunciado futuro medíocre,
tornar-me uma profissional livre e independente. Uma profissional
que ama o que faz e que, ainda, ganha para fazê-lo. É,
pois, com esse orgulho brioso, que ostento o emblema do então
Externado Consolata e que, a ele, rendo minhas homenagens e meu
eterno agradecimento.
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